O que é demência e como se manifesta
Você já percebeu um familiar repetindo as mesmas perguntas? Ou talvez esquecendo nomes de pessoas próximas?
Você já se perguntou o que é demência? Embora esse termo esteja entrando em desuso, vamos entender mais sobre ele.
A demência não é uma doença específica. É um conjunto de sintomas. Afeta a memória, o pensamento e as habilidades sociais. Interfere na vida diária da pessoa.
Atendo pacientes com demência há mais de 15 anos. Cada caso é único. Cada pessoa enfrenta desafios diferentes.
A demência atinge cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. Os números crescem a cada ano. “A demência representa um dos maiores desafios de saúde pública global do século 21, com impacto devastador na qualidade de vida dos pacientes e seus cuidadores” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
Os sintomas variam. Dependem do tipo de demência. Mas todos interferem na autonomia.
Vamos entender melhor cada tipo. E suas diferenças.
Principais tipos de demência
Existem vários tipos de demência. Cada um com suas características. Vamos conhecer os principais.
Doença de Alzheimer: a forma mais comum
O Alzheimer é o tipo mais comum. Representa 60% a 70% dos casos.
Começa de forma sutil. A pessoa esquece conversas recentes. Perde objetos pela casa. Confunde datas.
Ana, minha paciente de 72 anos, contava a mesma história várias vezes. Não percebia que estava repetindo. A família notou antes dela.
No cérebro, ocorrem duas alterações principais. Placas amiloides se acumulam. E emaranhados de proteína tau se formam. É como se o cérebro desenvolvesse “nós” que atrapalham a comunicação entre as células.
A progressão geralmente é lenta. Dura de 8 a 20 anos. Os primeiros sinais podem passar despercebidos.
O diagnóstico precoce faz diferença. Permite planejar o futuro. E iniciar tratamentos que podem ajudar.
Demência vascular e alterações cerebrovasculares
A demência vascular vem em segundo lugar. Resulta de problemas com o fluxo sanguíneo no cérebro.
Pode começar após um AVC. Ou aparecer depois de vários pequenos derrames silenciosos.
José, 78 anos, notou que sua mente “travava” de repente. Tinha momentos de clareza total. E outros de confusão. Essa é uma característica comum da demência vascular.
Os sintomas podem aparecer de repente. Diferente do Alzheimer. E a progressão tende a ser em “degraus”.
As áreas afetadas dependem das regiões do cérebro com problemas circulatórios. Por isso, os sintomas variam tanto de pessoa para pessoa.
O controle dos fatores de risco vascular é fundamental. Hipertensão, diabetes e colesterol alto precisam de atenção.
Demência com corpos de Lewy e manifestações específicas
Este tipo tem características bem distintas. E muitas vezes é confundido com outras condições.
Os corpos de Lewy são depósitos anormais de proteína. Formam-se dentro das células cerebrais. Afetam áreas relacionadas ao pensamento e movimento.
Marta, 65 anos, não entendia o que acontecia. Via pessoas que não estavam lá. As alucinações eram tão reais para ela. Um sinal clássico deste tipo de demência.
Outros sinais incluem:
- Flutuações na atenção e alerta
- Problemas de movimento parecidos com Parkinson
- Transtorno comportamental do sono REM
- Sensibilidade a certos medicamentos
As pessoas com esta demência podem ter dias bons e ruins. Num dia, parecem quase normais. No outro, muito confusas.
O diagnóstico preciso é essencial. Alguns medicamentos usados em outras demências podem ser perigosos nesta.
Sinais e sintomas dos diferentes tipos de demência
Os sintomas variam entre os tipos de demência. Mas também entre as pessoas.
Alterações cognitivas e perda de memória
A memória recente é a primeira afetada no Alzheimer. A pessoa esquece conversas ou eventos recentes. Mas lembra bem o passado distante.
Na demência vascular, a memória pode ser menos afetada. Mas o raciocínio e a organização de tarefas sofrem mais.
Pedro, meu paciente de 68 anos, ainda tocava piano perfeitamente. Músicas que aprendeu na juventude. Mas não conseguia aprender novas melodias. O cérebro funciona assim na demência.
Outras alterações cognitivas comuns são:
- Dificuldade para encontrar palavras
- Problemas com orientação espacial
- Dificuldade para fazer cálculos simples
- Raciocínio lento ou confuso
Perceber estas mudanças no início faz toda diferença. O acompanhamento médico deve começar cedo.
Mudanças comportamentais e de personalidade
As mudanças no comportamento preocupam as famílias. Muitas vezes são o motivo da consulta médica.
Na doença de Alzheimer, a pessoa pode ficar mais ansiosa. Ou apática. Traços da personalidade podem se intensificar.
Na demência com corpos de Lewy, as alucinações visuais são comuns. A pessoa vê objetos ou pessoas que não estão lá.
Dona Cláudia, 81 anos, sempre foi organizada e calma. Com a demência, ficou irritadiça e desconfiada. A família estranhava. Parecia outra pessoa.
Essas mudanças têm base neurológica. Não são “manha” ou “teimosia”. São sintomas da doença.
O manejo adequado desses sintomas melhora a qualidade de vida. Tanto do paciente quanto da família.
Declínio funcional e perda de autonomia
A perda da autonomia acontece gradualmente. Começa com atividades complexas.
A pessoa esquece de pagar contas. Tem dificuldade para dirigir. Ou para preparar refeições mais elaboradas.
Com o tempo, atividades básicas ficam comprometidas. Vestir-se. Tomar banho. Alimentar-se.
Carlos, 75 anos, era advogado. Primeiro, começou a esquecer compromissos. Depois, não conseguia mais redigir documentos. Aos poucos, precisou de ajuda até para escolher suas roupas.
O acompanhamento multidisciplinar ajuda muito. Terapia ocupacional. Fisioterapia. Adaptações na casa.
Cada ganho de independência conta. E melhora a autoestima do paciente.
Causas e fatores de risco para demência
A idade é o principal fator de risco. Mas a demência não é parte normal do envelhecimento.
Fatores genéticos têm papel importante. Principalmente no Alzheimer de início precoce.
A saúde cardiovascular afeta diretamente o risco. Hipertensão, diabetes e colesterol alto aumentam as chances de demência.
O estilo de vida também influencia. “Estudos epidemiológicos sugerem que fatores modificáveis, como atividade física regular, dieta saudável e engajamento social, podem reduzir o risco de desenvolver demência em até 40%” (LIVINGSTON et al., 2020).
O baixo nível educacional está associado a maior risco. Quanto mais tempo de estudo, menor a chance de desenvolver demência.
Trauma craniano repetitivo pode ser um fator. Vemos isso em ex-atletas de esportes de contato.
A boa notícia? Muitos desses fatores são modificáveis. Podemos agir para reduzir o risco.
Diagnóstico e avaliação dos quadros demenciais
Não existe um único teste para diagnosticar demência. É preciso uma avaliação completa.
A história clínica detalhada é fundamental. Conversamos com o paciente e familiares.
Testes cognitivos ajudam a identificar as áreas afetadas. E o grau de comprometimento.
Exames de sangue descartam outras condições. Hipotireoidismo. Deficiência de vitamina B12. Infecções.
Neuroimagem mostra a estrutura do cérebro. Tomografia ou ressonância magnética. Ajuda a identificar o tipo de demência.
Em alguns casos, fazemos testes mais específicos. PET scan. Análise do líquido cefalorraquidiano.
O diagnóstico precoce traz benefícios. Tratamento adequado. Planejamento do futuro. Acesso a serviços de apoio.
Tratamentos e abordagens para demência
Ainda não temos cura para as demências. Mas temos tratamentos que ajudam.
Medicamentos específicos podem ajudar nos sintomas cognitivos. Inibidores da colinesterase. Memantina.
O tratamento dos sintomas comportamentais é importante. Agitação. Depressão. Ansiedade. Insônia.
Abordagens não-medicamentosas são essenciais. Terapia ocupacional. Estimulação cognitiva. Atividade física.
O ambiente faz diferença. Um ambiente calmo e familiar ajuda. Rotinas claras trazem segurança.
O suporte aos cuidadores é fundamental. Grupos de apoio. Orientação profissional. Cuidados de respiro.
Na minha prática, vejo resultados melhores com abordagens combinadas. Medicamentos quando necessários. E muita atenção aos aspectos psicossociais.
Cada demência tem suas particularidades de tratamento. O plano deve ser individualizado.
Conclusão
Viver com demência é um desafio. Para o paciente e para a família.
Conhecer os diferentes tipos ajuda. Entender os sintomas permite um cuidado melhor.
O diagnóstico correto faz diferença. Cada tipo de demência tem suas peculiaridades.
Busque ajuda profissional aos primeiros sinais. Quanto mais cedo começar o acompanhamento, melhor.
A ciência avança. Novos tratamentos surgem. E a esperança de melhores cuidados cresce.
Se você cuida de alguém com demência, cuide também de si. O autocuidado do cuidador é essencial.
Não há jornada fácil quando falamos de demência. Mas com conhecimento e apoio, o caminho fica menos árduo.